sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Relíquias dos deuses 2 - A Foice de Mandhros

A morte tem muitas faces, se Crisalis tivesse pego o caos emprestado com Mandhros esse teria pedido em troca os disfarces que usa cada vez que uma pessoa conhece sua obra prima: a morte. Não se engane com esperanças de anjos e luzes brancas, a morte raramente é tão bela ou romântica. Algo tão raro que vale a pena ser procurado e almejado, e assim foi por Aleit.

Por mais que não tivesse a imortalidade dos elfos, Aleit ainda era jovem e tinha tempo o bastante para se aperfeiçoar numa arte que aprendera ainda pequeno, criado num prostíbulo onde sua mãe lhe sussurrava para ficar quietinho no armário enquanto ela estava ocupada.

Aleit nunca pensou mau de sua mãe, cada um fazia o que precisava para viver, no caso dela era se vender, no dele matar... Matar como seu modelo paternal fazia, Luc era a versão simpática dos assassinos. Sempre gentil com as mulheres, sorridente com os amigos e implacável com seus trabalhos. Matava em nome das mulheres da casa aqueles que passavam dos limites ou não pagavam.

-Sempre segure assim, dá mais leveza e agilidade ao punho... – Luc explicava com uma adaga sem fio ensinando Aleit a maneja-la – Não importa se o estrago das espadas e machados é maior, Aleit. O importante é entrar e sair, rápido e silencioso. Para ninguém saber além de você o que aconteceu...

-Nem quem morre? – Aleit perguntava com seus belos e gelados olhos azuis brilhando.

-Se possível, nem quem morre!

Esse era o tipo de ensinamento que Aleit levaria por toda a vida e que no fim dos seus 26 anos ainda estava fresco em sua memória. Tanto tempo, tanto sangue e ainda não tinha alcançado o que ele julgava uma bela morte. Limpa, rápida, sem dor, sem noticia e sem bagunça... Deixar uma dama deitada na cama como se ainda dormisse um sono morno e tranqüilo, permitir ao velho senhor que repousasse a cabeça na poltrona como se tivesse adormecido lendo as últimas cartas. Mal manchar o cenário de sua composição de sangue, nenhum ruído maior que uma agulha caindo em outra sala. Ainda não tinha conseguido...

-Da próxima tente furar na garganta... – era uma voz baixa, mas tinha força, era rouca e fria como uma brisa na nuca que lhe faz arrepiar.

-Que? – Aliet se virou, sabia que o morto na cadeira não tinha dito nada, estava morto com um corte na lateral do pescoço. Mas tinha mais alguém ali. Quem? Tinha procurado na casa antes de fazer seu trabalho. – Quem está aí?

-Não se incomode comigo, por favor... Só parei para apreciar. Foi muito interessante o jeito que você destrancou a porta sem nenhum barulho...

Aliet teve que piscar algumas vezes para entender o que estava vendo, na frente da janela, ao lado da cortina e sendo chacoalhado pelo vento como a mesma um manto escuro como céu de tempestade e rasgado como trapos de mendigo, o vento levou parte do manto até seu rosto, não era tecido... Ao lhe tocar virou cinzas como papel queimado.

-Por Mandhros... – Aliet murmurou olhando as cinzas na mão que levou ao rosto.

-Por Mandhros, de Mandhros... – uma mão de pele pálida e ossuda apontou para o morto ali do lado – Para Mandhros...

-Quem é você? – Aliet deu um passo para frente, por algum motivo sentia uma certa empatia naquela voz e naquele ser.

-Já tive muitos nomes desde que Mandhros inventou a morte. Muito prazer, assassino, pode me chamar de Nihil, a Foice de Mandhros. – havia barulhos na rua, alguém estava chegando.

-Veio me matar? – Aliet perguntou sem nem tremer a voz.

-Não... Apenas dar os parabéns, você realmente facilita meu trabalho... – Se Nihil tivesse um rosto por baixo daquele manto, o rosto estaria sorrindo – Adoraria ficar e conversar, mas eu tenho coisas a fazer e você pessoas a receber... – Nihil sumiu só restando a cortina tremendo ao vento.

-Gerard! Gerard! Cheguei! – uma voz gritava.

Aliet não se alterou, primeiro por que não era devoto nem supersticioso, segundo por que não tinha medo de morrer, terceiro por que desde que ficasse calmo sairia dali sem problemas. Foi o que aconteceu, mas nos dias seguintes não conseguiu trabalhar. Ficava puxando os cabelos negros como se quisesse arrancar junto com eles alguma conclusão de sua cabeça.

-Desistiu de achar sua ‘bela morte’? – era a voz de novo, Aliet se levantou num pulo da cama e encarou, ou pelo menos pensava estar encarando, Nihil sentado na cadeira. – Olá...

-Você... Que quer comigo? – Aliet perguntou impaciente.

-Conversar... E você o que quer? – Nihil parecia ligeiramente mais dissimulado que o mais dissimulado que Aliet já conhecera. Mas o que mais poderia esperar de algo que não era humano e aparecia quando queria onde queria. – Minha aparência lhe incomoda, Aliet?

-Me parece muito comum para a foice de Mandhros... A aparência que qualquer criança imaginaria ao ouvir uma história de terror...- Aliet respondeu notando que Nihil se chamava de foice, mas não carregava nada. – Como uma foice mata sem lâmina alguma?

-Eu sou a lâmina... – Aliet olhou maravilhado enquanto um foice aparecia firme na mão de Nihil, a lâmina ensangüentada. – Talvez outra aparência lhe agrade mais...

Aliet se não estivesse acostumado com pouca roupa e mulheres lindas ficaria de queixo caído ao ver a aparência de Nihil se tornar uma jovem morena de olhos verdes e roupas justas segurando a mesma foice. A jovem sorriu abraçada a foice, mais um anjo da morte que um ceifador.

-Ou talvez algo mais sério... – a voz era a mesma, e a Nihil voltou a mudar se tornando um senhor de trajes sacerdotais, longa barba branca, só a foice não mudava – Que rosto você quer que a morte tenha, Aliet? O seu? – o rosto do senhor se tornou seu próprio rosto e Aliet pegou a adaga pensando em finca-la na cabeça de Nihil para que parasse de piadas. – Talvez não... – Nihil voltou a forma de criatura de manto negro e capuz lhe encobrindo o rosto.

-Pode matar qualquer um?

-De qualquer jeito... – Nihil respondeu.

-A qualquer hora?

-Não importa o lugar... – Nihil parecia se divertir com aquilo.

-Pode me ensinar? – os olhos azuis de Aliet brilhavam como os de uma criança que pedia por um pedaço de doce, a inocência reluzente neles era completamente oposta a vida que levava, mas ali estava.

-Claro que não... – O brilho de Aliet despencou até que ele foi tragado para um abismo de decepção, mas Nihil continuou a falar como se não ligasse ou não tivesse notado nada de diferente – Mas posso lhe ajudar a alcançar o que você deseja...

-Como? Duvido que a foice de Mandhros fosse boa o suficiente para ajudar qualquer um sem um preço... Só por admirar meu trabalho... – Aliet riu.

-Claro...eu cobraria com sua alma, mas acho um preço bem razoável para que você possa usar a arma mais letal de todo o primórdio.

-A arma mais letal? – Os olhos de Aliet tornaram a brilhar.

-E mais silenciosa...

-Qual?

-Temos um acordo?

-De que serve minha alma mesmo? Temos um acordo... – Aliet sorriu.

-Xeque-mate... – Nihil falou se levantando da cadeira – Xeque...e mate!

O movimento da foice foi tão rápido que Aliet não conseguiu acompanhar, antes que se desse conta já sentia seu peito ser cortado pela lâmina sangrenta, teria amaldiçoado Nihil se pudesse falar, mas nas atuais circunstâncias apenas caiu na cama. Mais tarde abriria os olhos com dor no peito onde ganhara uma cicatriz, passou os dedos sobre a marca da foice, mas não demorou até outra coisa chamar mais sua atenção.

-Nihil... – Aliet passou os dedos com suavidade pela lâmina ensangüentada, segurou com curiosidade o cabo negro enquanto lia as inscrições: Nihil. Uma adaga, nada mais adequado para alguém como ele.

Jogou sua adaga velha fora e colocou a nova no bolso, saiu de casa sem se importar com a camisa rasgada onde a cicatriz aparecia como se fosse um ferimento velho de batalha.

Invadiu a primeira casa que dava sinais de isolamento, entrou sem problemas, ficou num canto do quarto admirando os lençóis da cama, a posição da mesa que servia de penteadeira, sentiu o perfume das cortinas e esperou.

-Que dia... – vitima boa, tinha a voz baixa e suave. Largou o casaco na cama e se sentou na penteadeira, atividades marcadas pela rotina, sem olhar para os cantos, para o escuro, para o visitante indesejado. – Uma...duas...três... – ela contava enquanto penteava o cabelo.

Ele deu passos curtos e discretos, admirava como ela segurava firme o cabelo e a escova, talvez a posição não mudasse depois de sua morte. Chegou bem perto, ela não notou, cheirou o perfume de seus cabelos, a contagem chegou ao vinte. Sorriu e tirou a adaga de Nihil do bolso, uma perfuração rápida atrás do pescoço. Os olhos dela continuavam abertos, a mão esquerda no cabelo, a direita na escova. A perfuração foi pequena e não escorreu nenhum sangue, a lâmina o bebeu como um miserável sedento.

-Linda... – Aliet murmurou depois beijou a lâmina em agradecimento

4 comentários:

  1. "-Há qualquer hora?"

    Não tem esse H aí n seu verme! hehe

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  2. Eu nem acredito no que estou lendo! Há quanto tempo!

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  3. Esse foi você mesmo quem escreveu, Enrico? Ou também foi a Mo? Eu já não lembro mais, hehe

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